Dica brasileira aos educadores alemães
Certa vez, Otto Maria Carpeaux escreveu sobre os seus primeiros dias como estudante na universidade. “A decepção foi muito grande. Via a biblioteca coberta de poeira, os auditórios barulhentos, estupidez e cinismo em cima e em baixo das cadeiras dos professores, exames fáceis e fraudulentos, brutalidades de bandos que gritavam os imbecis slogans políticos do dia, e que se chamavam ‘acadêmicos’”.
Qualquer pessoa que tenha cursando uma faculdade “da área de humanas” sabe que essa realidade criminosa não só persiste no meio acadêmico brasileiro como se acentua a cada geração. Hoje, os próprios slogans políticos substituíram as disciplinas a tal ponto que abraçar-se a um slogan político é o mais seguro caminho para a progressão acadêmica no Brasil. Lembrei-me do depoimento de Carpeaux porque dia desses fui informado, por um e-mail, do lançamento de um desses livros que têm tudo para virar febre entre os acadêmicos semi-alfabetizados “da área de humanas”. Trata-se do pomposo “Caminhos para transformação da Escola: reflexões desde práticas da Licenciatura em Educação do Campo”, um apanhado de “reflexões” sobre as experiências educacionais aplicadas à educação no campo, ou coisa parecida.
Dizia a resenha: “[O livro] é um divisor de águas na crítica à escola liberal burguesa, aos seus teóricos e uma proposta concreta de construção de uma nova escola nos marcos da educação socialista”. Escola liberal burguesa, suponho, é aquela que insiste em não promover a dogma os slogans políticos imbecis do momento e que, ano após ano, enche de vergonha países como a Alemanha, a Finlândia e a Coreia do Sul, eternos ocupantes dos últimos lugares no ranking mundial de educação. O autor explica que seus estudos publicados no livro tiveram como base a “pedagogia socialista desenvolvida na fértil fase da revolução russa”. Aqui, a imaginação corre solta. O que diabo seria a “pedagogia da revolução russa?”. Fuzilamento I, II e III? Erros e acertos nos campos de concentração: da teoria à prática?
O autor continua, no que considero o trecho mais hilário do texto. “O primeiro cuidado [na conclusão da obra] é não tentar formular um método de ensino, mas sim um procedimento orientador da ação do coletivo da escola”. Ah, bom! Ele não tem a pretensão de fazer de suas conclusões um método, mas tão somente um “procedimento orientador coletivo”. Algum pérfido leitor poderia encontrar nas explicações do autor um traço qualquer de vigarice, todavia, senhores, digo-lhes apenas que o homem está no caminho da progressão acadêmica. Por fim, uma dica aos educadores alemães: a escola – recomenda o livro – deve abrir-se para a relação com outras “agências sociais” existentes em seu entorno, caso deseje lograr êxito.
Traduzindo para os alemães: abdiquem do ensino da gramática, da matemática, das ciências, enfim, disciplinas reacionárias da falida “escola liberal burguesa” e se debrucem sobre as matérias da “escola da vida”, como “formação crítica para a cidadania” e a “visão dos oprimidos”.
Rodolfo Oliveira - Jornalista
Fonte: JORNAL O ESTADO
Qualquer pessoa que tenha cursando uma faculdade “da área de humanas” sabe que essa realidade criminosa não só persiste no meio acadêmico brasileiro como se acentua a cada geração. Hoje, os próprios slogans políticos substituíram as disciplinas a tal ponto que abraçar-se a um slogan político é o mais seguro caminho para a progressão acadêmica no Brasil. Lembrei-me do depoimento de Carpeaux porque dia desses fui informado, por um e-mail, do lançamento de um desses livros que têm tudo para virar febre entre os acadêmicos semi-alfabetizados “da área de humanas”. Trata-se do pomposo “Caminhos para transformação da Escola: reflexões desde práticas da Licenciatura em Educação do Campo”, um apanhado de “reflexões” sobre as experiências educacionais aplicadas à educação no campo, ou coisa parecida.
Dizia a resenha: “[O livro] é um divisor de águas na crítica à escola liberal burguesa, aos seus teóricos e uma proposta concreta de construção de uma nova escola nos marcos da educação socialista”. Escola liberal burguesa, suponho, é aquela que insiste em não promover a dogma os slogans políticos imbecis do momento e que, ano após ano, enche de vergonha países como a Alemanha, a Finlândia e a Coreia do Sul, eternos ocupantes dos últimos lugares no ranking mundial de educação. O autor explica que seus estudos publicados no livro tiveram como base a “pedagogia socialista desenvolvida na fértil fase da revolução russa”. Aqui, a imaginação corre solta. O que diabo seria a “pedagogia da revolução russa?”. Fuzilamento I, II e III? Erros e acertos nos campos de concentração: da teoria à prática?
O autor continua, no que considero o trecho mais hilário do texto. “O primeiro cuidado [na conclusão da obra] é não tentar formular um método de ensino, mas sim um procedimento orientador da ação do coletivo da escola”. Ah, bom! Ele não tem a pretensão de fazer de suas conclusões um método, mas tão somente um “procedimento orientador coletivo”. Algum pérfido leitor poderia encontrar nas explicações do autor um traço qualquer de vigarice, todavia, senhores, digo-lhes apenas que o homem está no caminho da progressão acadêmica. Por fim, uma dica aos educadores alemães: a escola – recomenda o livro – deve abrir-se para a relação com outras “agências sociais” existentes em seu entorno, caso deseje lograr êxito.
Traduzindo para os alemães: abdiquem do ensino da gramática, da matemática, das ciências, enfim, disciplinas reacionárias da falida “escola liberal burguesa” e se debrucem sobre as matérias da “escola da vida”, como “formação crítica para a cidadania” e a “visão dos oprimidos”.
Rodolfo Oliveira - Jornalista
Fonte: JORNAL O ESTADO
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