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23 de julho de 2009

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Pequeno Texto para Reflexão
Círculo de Cultura: possibilidades de interseções de linguagens e de pensamentos
Pedagogo Janssen Felipe da Silva – Faintvisa-Insafjanssenfelipe@hotmail.com Existir é, assim, um modo de vida que é próprio ao ser capaz de transformar, de produzir, de decidir, de criar, de recriar, de comunicar-se (FREIRE, 1982, p. 66). Parto da premissa de que o Círculo de Cultura no VI Colóquio é um espaço-tempo de socialização e de problematização sistemática de “existires educativos” fundamentados no pensamento freireano, esta metodologia de trabalho caracteriza-se por ser lugar privilegiado de comunicação-discussão das sistematizações oriundas das vivências pedagógicas. O Círculo de Cultura possibilita a expressão de movimentos de criação e de recriação do mundo na ânsia esperançosa de transformá-lo em função de projetos emancipadores. Esta metodologia de trabalho pressupõe, a meu ver, o diálogo firmado em duas pilastras: a fala e a escuta. A fala fundamentada nas experiências refletidas dos sujeitos e na produção teórica da educação. A escuta orientada pela vontade dos indivíduos de apreender a fala do outro e da outra problematizando-a e problematizando-se. O desafiante desta metodologia de trabalho é o encontro de linguagens acadêmicas, que caracterizam a Educação Superior, com as linguagens dos Movimentos Sociais. Garantir a expressão das especificidades destas linguagens é o principal esforço orientador na constituição e na materialização dos Círculos de Cultura.Para tanto, urge considerar o caráter acadêmico sócio-cultural do VI Colóquio. Não há uma lógica epistemológica fechada que oriente a feitura deste evento, ao contrário, existe uma pluralidade epistêmica que exige uma flexibilidade de pensamento daqueles e daquelas que coordenam e relatam os trabalhos. Assim, cabe ao coordenador e à coordenadora incentivar o entrelaçamento das linguagens e suas respectivas lógicas epistêmicas, evidenciando os focos que cada trabalho traz para ser problematizado pelo grupo. É de responsabilidade também do coordenador e da coordenadora fazer o elo entre os trabalhos, instigando o debate e constituindo uma rede de significados registrados pelo relator e pela relatora. O Círculo de Cultura segue a seguinte idéia: A democracia (...) é forma de vida, se caracteriza sobretudo por forte dose de transitividade de consciência no comportamento do homem. Transitividade que não nasce e nem se desenvolve a não ser dentro de certas condições em que o homem seja lançado ao debate, ao exame de seus problemas comuns (FREIRE, 1991, p. 80). Neste prisma, o Círculo de Cultura é locus da vivência democrática de formas de pensamentos, de experiências, de linguagens e de vida. Contudo, é bom ressaltar a natureza transitiva deste momento. São cinco Colóquios ocorridos com a marca mais acadêmica e este assume uma interseção de lógicas e de linguagens, por isto está na transitividade. Esta condição de transitividade intenciona a construção de condições efetivas para a democracia de expressões, de pensamentos e de lógicas a partir do respeito às diferenças e o incentivo a participação. Nestas condições efetivas, a principal é a da consciência da mudança de pensamento, mais especificamente, da estrutura do pensamento fechado para o aberto, do monólogo de linguagens para o diálogo entre elas em uma dinâmica que lança o sujeito ao debate, focando os problemas comuns. Nesta linha de raciocínio, é função do coordenador e da coordenadora identificar nos trabalhos apresentados as questões que são relevantes para uma melhor compreensão da temática e da sub-temática do grupo. Questões estas que são elementos mediatizadores da leitura das práxis pedagógicas e das realidades vividas. Por isso é fundamental a leitura prévia dos trabalhos. Cada coordenador e coordenadora e relator e relatora precisa conhecer os textos que compõem seu Círculo de Cultura para ter uma intimidade com os mesmos e favorecer a identificação das questões que possibilitaram a criação da rede de sentido do grupo. Os trabalhos precisam ser apresentados em um tempo pedagógico negociado com os membros do Círculo de Cultura, levando em conta a necessidade de garantia da fala e da escuta de todos e de todas de maneira sistemática. Friso que é imprescindível que o tempo seja organizado considerando: tempo de acolhimento; tempo de apresentação; tempo de discussão; tempo de síntese. Estes tempos não são lineares ou etapistas, mas, sobretudo, são tempos simultâneos e complementares. Cabe ao coordenador e da coordenadora e do relator e da relatora o bom senso para discutir, distribuir e vivenciá-los. A organização do tempo precisa levar em conta a Solidariedade que há entre a linguagem-pensamento e a realidade, cuja transformação, ao exigir novas formas de compreensão, coloca também a necessidade de novas formas de expressão (FREIRE, 1982, p. 24). A nova feitura do Colóquio, a meu ver, pretende favorecer as novas maneiras de compreensão e de expressão do mundo. Assim, busca-se a unidade polifórmica entre linguagem-pensamento-realidade. O tempo-pedagógico é um locus privilegiado das manifestações dinâmicas desta unidade polifórmica, isto é, da unidade na diversidade. Destaco que a intencionalidade deste evento, considerando os preceitos freireanos, é a possibilidade de apresentação-discussão de trabalhos que contribuem para criar e recriar as condições para a construção de consciências e de ações que visem a transformações da realidade. Transformações estas inspiradas na esperança “enquanto necessidade ontológica [que] precisa ancorar-se na prática” (FREIRE, 1992, p. 11). Por conseguinte, o VI Colóquio firma-se no princípio de que a “prática docente crítica” requer uma relação entre “o fazer e o pensar sobre o fazer” para superar a produção em massa de práticas pedagógicas espontâneas. Estas incentivam a disseminação de “saber ingênuo, um saber de experiência feita, a que falta a rigorosidade metódica que caracteriza a curiosidade epistemológica do sujeito” (FREIRE, 1996, p. 43). Por fim, a feitura deste Colóquio traz o germe da transformação, da ruptura com as lógicas fechadas e dominantes de leitura de mundo e de intervenção sobre ele. Por isso torna-se um instigante desafio sua materialidade, exigindo de todos e de todas comprometimento com a abertura para as novas modalidades de expressão das produções teórico-práticas e para o diálogo com a diversidade. Referências
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 16 ed. São Paulo : Paz e Terra, 1996._____. Pedagogia da esperança. 4 ed. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1992._____. Educação como prática da liberdade. 20 ed. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1991._____. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. 8 ed. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1982.

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